« Quem foi que riu na noite silenciosa,

Que o riso deu à noite a forma duma rosa?

 

E quem chorou depois na noite densa,

Que a Rosa[1] se desfez em lágrima suspensa? »

 

(In Poesia Completa de Natália Correia[2], Publicações D. Quixote)

 

 

Senhor Presidente[3]

Permite-me, na minha gratidão pelo benévolo acolhimento que me fez um dia, ter a preocupação da sua justa glória e dizer-lhe que a sua estrela, tão feliz até agora, está ameaçada pela mais vergonhosa e a mais inapagável das nódoas?

Saiu são e salvo de baixas calúnias, conquis­tou os corações. Aparece radiante na apoteose dessa festa patriótica que a aliança russa foi para a França, e prepara-se para presidir ao triunfo solene da nossa Exposição universal, que coroará o nosso grande século de trabalho, de verdade e de liberdade. Mas que mancha de lama sobre o seu nome - ia dizer sobre o seu reinado - esta abominável questão Dreyfus! Um conselho de guerra acaba, por ordem, de ousar absolver um Esterhazy, bofetada suprema em toda a verdade, em toda a justiça. E acabou-se, a França tem sobre a face esta sujidade, a histó­ria escreverá que foi sob a sua presidência que um tal crime social pôde ser cometido.

Visto que eles ousaram, ousarei também, eu. A verdade, di-la-ei, porque prometi dizê-la, se a justiça, regularmente informada, não a fizesse plena e inteira. O meu dever é falar, não quero ser cúmplice. As minhas noites seriam domina­das pelo espectro do inocente, que expia, lá longe, na mais horrível das torturas, um crime que não cometeu.

E é a si, senhor Presidente, que gritarei essa verdade, com toda a força da minha revolta de homem honesto. Para sua honra, estou conven­cido de que a ignora. E a quem denunciaria eu a turba maléfica dos verdadeiros culpados, se não a si, o primeiro magistrado do país?

 

***

A verdade primeiro, sobre o processo e sobre a condenação de Dreyfus.

Um homem nefasto tudo tramou, fez tudo, é o coronel du Paty de Clam, então simples ma­jor[4]. Ele é toda a questão Dreyfus; só a conhe­cerão quando um inquérito leal estabelecer claramente os seus actos e as suas responsabilidades. Aparece com o espírito o mais nebuloso, complicado, dominado por intrigas ro­manescas, comprazendo-se nos processos dos romances-folhetins, papéis roubados, cartas anónimas, encontros em lugares desertos, mulheres misteriosas que transportam, de noite, provas esmagadoras. Foi ele quem imaginou ditar o bordereau a Dreyfus; foi ele quem sonhou de o estudar num aposento inteiramente revestido de espelhos; é ele que o major Forzinetti[5] nos apresenta armado de uma lanterna de furta-fogo, querendo ser introduzido junto do acusado adormecido, para projectar sobre o seu rosto um brusco jorro de luz e surpreender assim o seu crime, na surpresa do despertar. E não preciso de dizer tudo, procurem e acharão. De­claro simplesmente que o major du Paty de Clam, encarregado de instruir o processo Drey­fus como oficial de polícia judiciária, é, na or­dem das datas e das responsabilidades, o pri­meiro culpado do horrível erro jurídico que foi cometido.

O bordereau estava, havia já algum tempo, nas mãos do coronel Sandherr[6], director da repartição de informações, morto depois de para­lisia geral. Davam-se «fugas», desapareciam pa­péis, como desaparecem ainda hoje; e o autor do bordereau era procurado, quando um a priori se estabeleceu, pouco a pouco, de que esse autor só poderia ser um oficial do estado-maior, é um oficial de artilharia: duplo erro manifesto que mostra com que espírito superficial tinham estudado o bordereau, pois um exame razoável demonstra que só poderia tratar-se de um oficial de tropas.

Procuraram, portanto, na casa, examinaram escritas, era como uma questão de família, um traidor para surpreender nas próprias repartições e para o expulsar delas. E, sem que queira, repetir aqui uma história conhecida em parte, o major du Paty de Clam entrou em ce­na, assim que uma primeira suspeita caiu sobre Dreyfus. A partir desse momento foi ele quem inventou Dreyfus, a questão torna-se a sua questão, jacta-se de confundir o traidor, de o levar à confissão completa. Há ainda o ministro da guerra, o general Mercier[7], cuja inteligência parece medíocre; há ainda o chefe do estado-maior, o general de Boisdeffre[8], que parece ter cedido à sua paixão clerical, e o sub-chefe do estado maior, o general Gonse[9], cuja consciência pôde acomodar-se com muitas coi­sas. Mas no fundo, só há, de começo, o major du Paty de Clam, que os conduz a todos, que os hipnotiza, pois ocupa-se de espiritismo, de ocultismo, conversa com os espíritos. Não se acreditará nunca nas provas a que submeteu o infeliz Dreyfus, nas armadilhas em que quis fazê-lo cair, os inquéritos loucos, as imaginações monstruosas, toda uma demência torturante.

Ah! Esta primeira questão, é um pesadelo para quem a conhece nos seus verdadeiros porme­nores! O major du Paty de Clam prende Dreyfus, mete-o no segredo. Corre a casa da senhora Dreyfus, aterroriza-a, diz-lhe que se ela fala, o seu marido está perdido. Durante esse tempo, o infeliz arrancava a própria carne, rugia à sua inocência. E a instrução foi feita assim com uma crónica do século XV, no meio do mistério, com uma complicação de expedientes ferozes, tudo isso baseado numa única acusação infantil, esse bordereau imbecil, que não ara apenas uma traição vulgar, que era também a mais impudente das burlas, pois os famosos segredos revelados eram quase todos sem valor. Se insisto é porque o ovo está aqui, donde sairá mais tarde o verdadeiro crime, a espantosa negação da justiça de que a França sofre. Desejaria fazer tocar com a mão como o erro judiciário pôde ser possível, como nasceu das maquinações do major du Paty de Clam, como o general Mercier, os generais de Boisdeffre e Gonse pu­deram deixar-se apanhar, comprometer pouco a pouco a sua responsabilidade nesse erro, que quiseram mais tarde impor como a verdade santa, uma verdade que nem sequer se discute. De começo, só há da sua parte incúria e ininteligência. Quando muito sentimo-los ceder às paixões religiosas do meio e aos preconceitos do espírito de corpo. Deixaram fazer a tolice.

Mas eis Dreyfus perante o conselho de guerra. A audiência secreta, a mais rigorosa, é exigida. Se um traidor tivesse aberto as fronteiras ao inimigo, para conduzir o imperador da Alemanha até à Notre Dame, não se tomariam mais estritas medidas de silêncio e de mistério. A nação foi atingida pela estupefacção, murmu­ram-se factos terríveis, uma dessas traições monstruosas que indignam a História, e natu­ralmente a nação aceita-a. Não há castigo bastante severo, ela aplaudira a exautoração pública, quererá que o culpado fique no seu rochedo de infâmia devorado pelos remorsos. É então ver­dade, as coisas indizíveis, as coisas perigosas, capazes de pôr a Europa em chamas, que tiveram de enterrar ruidosamente por detrás dessa au­diência secreta? Não; só houve, por detrás dela, a imaginação romanesca e dementada do major du Paty de Clam. Tudo isso só foi feito para ocultar o mais ridículo dos romances-folhetins. E basta, para ter a certeza disso, estudar atenta­mente o libelo lido perante o conselho de guerra.

Ah, o nada desse libelo! Que um homem possa ser condenado por essa acusação é um prodí­gio de iniquidade. Desafio as pessoas honestas que o leiam sem que o seu coração salte de indignação e grite a sua revolta, ao pensar na expiação desmesurada, lá longe, na ilha do Diabo. Dreyfus sabe várias línguas, crime; não se encontrou em sua casa nenhum papel comprome­tedor, crime; vai às vezes à sua terra natal, crime; é trabalhador, crime; tem a preocupação de saber tudo, crime; não se perturba, crime; perturba-se, crime; E as ingenuidades de redacção, as formais afirmações no vácuo! Tinham-nos falado de catorze pontos de acusação: só encontrámos um único em fim de contas, o do bordereau; e sabemos mesmo que os peritos não estavam de acordo, que um deles, Sr. Gobert, foi sacudido militarmente por se permitir não tirar conclusões no sentido desejado. Fala­ram também de vinte e três oficiais que tinham ido acusar Dreyfus com os seus testemunhos. Ignoramos ainda os seus interrogatórios, mas é certo, que nem todos o acusaram; e deve notar-se além disso que todos pertenciam a repar­tições de guerra[10]. É um processo de família, onde se está como em casa, é preciso não o esquecer: o estado-maior quis o processo, jul­gou-o e acaba de o julgar uma segunda vez.

Portanto, só havia o bordereau acerca do qual os peritos não se entenderam. Conta-se que, na sala do conselho, os juizes iam naturalmente absolver. E, a partir de então, como se com­preende a obstinação desesperada com que, para justificar a condenação, se afirma hoje a existência dum documento secreto, comprometedor, a peça que não se pode mostrar, que legitima tudo, perante a qual nos devemos inclinar, o bom Deus invisível e desconhecido. Nego-a, a essa peça, nego-a com toda a minha força! Uma peça ridícula, sim, talvez a peça[11] onde se fala de meninas e dum certo D... que se torna muito exigente: qualquer marido sem dúvida que achava não lhe pagarem a sua mulher bastante caro. Mas uma peça que interessasse à defesa Nacional, que não se poderia produzir sem que a guerra fosse declarada no dia seguinte, não, não! É uma mentira; e isso é tanto mais odioso e cínico que mentem impunemente, sem que se possa obrigá-los a reconhecê-lo. Amotinam a França e ocultam-se por detrás da sua legítima emoção, fecham as bocas perturbando os cora­ções, pervertendo os espíritos. Não conheço maior crime cívico.

Eis pois, senhor Presidente, os factos que explicam como um erro judiciário pôde ser cometido; e as provas morais, a situação de fortuna de Dreyfus, a ausência de motivos, o seu contínuo grito de inocência, acabam de o mostrar como uma vítima da extraordinária imaginação do major du Paty de Clam, do meio clerical onde se encontrava, da caça aos «porcos ju­deus» que deshonra a nossa época.

***

 

E chegamos à questão Esterhazy[12]. Três anos passaram, muitas consciências continuam perturbadas profundamente, inquietam-se, pro­curam, acabam por se convencer da inocência de Dreyfus.

Não farei a história das dúvidas e, depois, da convicção do Sr. Scheurer-Kestner[13]. Enquan­to, porém, ele investigava do seu lado, passa­vam-se factos graves no próprio estado-maior. O coronel Sandherr morrera, e o tenente-coronel Picquart[14] sucedeu-lhe como chefe da reparti­ção de informações. Foi nesse cargo, no exercí­cio das suas funções, que o último teve um dia nas mãos uma carta-telegrama, dirigida ao major Esterhazy pelo agente duma potência estrangei­ra. O seu estrito dever era abrir um inquérito. Há a certeza de que nunca procedeu fora da von­tade dos seus superiores. Submeteu portanto as suas suspeitas aos seus superiores hierárquicos, o general Gonse, depois, o general Boisdeffre, depois o general Billot[15], que sucedera ao ge­neral Mercier como ministro da guerra. O fa­moso processo Picquart, de que se tem falado tanto, apenas foi o processo Billot, quero di­zer o processo organizado por um subordinado para o seu ministro, o processo que deve existir ainda no ministério da guerra. As inves­tigações duraram de Maio a Setembro de 96, e o que é preciso afirmar bem alto é que o gene­ral Gonse estava convencido da culpabilidade de Esterhazy, que o general e Boisdeffre e o general Billot não punham em dúvida que o famoso bordereau fosse da letra de Esterhazy. O inquérito do tenente-coronel Picquart tinha chegado a essa verificação certa. Mas a inquie­tação era grande porque a condenação de Es­terhazy arrastaria inevitavelmente a revisão do processo Dreyfus; e isso era o que o estado-maior não queria por nenhum preço.

Deveria ter havido então um minuto psicoló­gico pleno de ansiedade. Note que o general Billot não estava comprometido em nada, chegava de novo, podia estabelecer a verdade. Não ousou, sem dúvida pelo terror da opinião pública e certamente também por receio de entregar todo o estado-maior, o general Boisdeffre, o general Gonse, sem contar com os subalternos. Depois, foi apenas um minuto de combate entre a sua consciência e aquilo que julgava ser o interesse militar. Logo que esse minuto passou, já era demasiado tarde. Tinha-se enfeudado, estava comprometido. E a partir de então, a sua responsabilidade só aumentou, tomou para si o crime dos outros, é tão culpado conto os outros, é mais culpado do que eles, porque era senhor de fazer justiça e não fez nada. Compreenda isto! Há um ano que o general Billot, que os generais de Boisdeffre e Gonse sabem que Dreyfus está inocente, e guardaram para si esta coisa terrível. E essa gente dorme, tem mulheres e filhos a quem ama!

O tenente-coronel Picquart fizera inteiramente o seu dever de homem de bem. Insistia junto dos seus superiores em nome da justiça. Diri­gia-lhes mesmo súplicas, dizia-lhes como as suas delongas eram impolíticas, perante a terrível tempestade que ameaçava e devia rebentar quando a verdade fosse conhecida. Foi essa, mais tarde, a linguagem com que o Sr. Scheu­rer-Kestner se dirigiu igualmente ao general Billot, intimando-o por patriotismo a chamar a si a questão e a não a deixar agravar a ponto de se tornar num desastre público. Não ! O crime estava cometido, o estado maior já não podia confessar o seu crime. E o tenente-coronel Picquart foi enviado em missão, afastaram-no, de mais longe para mais longe, até a Tunísia, onde quiseram mesmo um dia honrar a sua bra­vura encarregando-o de uma missão que o teria certamente feito massacrar, nas paragens onde o marquês de Morès[16] encontrou a morte. Não caíra em desgraça, o general Gonse mantinha com ele uma correspondência amistosa. Somen­te, há segredos que não convém ter surpreendido.

Em Paris, a verdade caminhava, irresistível, e sabe-se de que maneira a tempestade esperada rebentou. O Sr. Mateus Dreyfus denunciou o major Esterhazy como o verdadeiro autor do bordereau, no momento em que o Sr. Scheurer-Kestner ia entregar nas mãos do ministro da justiça um pedido de revisão do processo. E é aqui que o major Esterhazy aparece. Testemu­nhos mostram-no de começo, aflito, pronto para o suicídio ou a fuga. Depois, subitamente, exibe audácia, surpreende Paris pela violência da sua atitude. Era por ter recebido socorro, uma carta anónima advertira-o das manobras dos seus inimigos, uma dama misteriosa tinha-se mesmo incomodado de noite para lhe ir entre­gar um documento, roubado ao estado-maior, que o deveria salvar. E não posso impedir-me de ver nisso o tenente-coronel du Paty de Clam, reconhecendo os expedientes da sua imagina­ção fértil. A sua obra, a culpabilidade de Dreyfus, estava em perigo, e quis seguramente de­fender a sua obra. A revisão do processo, mas era o desmoronar do romance-folhetim, tão ex­travagante, tão trágico, cujo desfecho abominá­vel se passa na ilha do Diabo! Era o que ele não poderia consentir. A partir de então, o duelo vai travar-se entre o tenente-coronel Picquart e o tenente-coronel du Paty de Clam, um a rosto descoberto, o outro mascarado. Encontrar-se-ão ambos, brevemente, perante a justiça civil. No fundo, é sempre o estado-maior que se defende, que não quer confessar o seu crime, cuja abominação cresce de hora a hora.

Tem-se perguntado com estupefacção quais eram os protectores do major Esterhazy. Foi, a princípio na sombra, o tenente-coronel du Paty de Clam quem tudo maquinou, quem conduziu tudo. A sua mão trai-se pelos meios ridículos. Depois, foi o general de Boisdeffre, foi o general Gonse, foi o próprio general Billot, obri­gados a fazer absolver o major, visto não poderem deixar reconhecer a inocência de Drey­fus, sem que as repartições da guerra ruíssem ante o desprezo público. E o belo resultado desta situação prodigiosa foi o homem honesto que está metido nisso, o tenente-coronel Picquart, que só cumpriu o seu dever, ir ser a vítima, aquele a quem se vilipendiará e se punirá. Oh justiça, que terrível desesperança aperta o cora­ção! Vão até dizer ser ele o falsário, que fabricou a carta-telegrama para perder Ester­hazy. Mas, grande Deus, porquê ? Com que fim? Dêem um motivo. E porque esse também foi pago pelos judeus? O lindo da história é que ele era justamente anti-semita. Sim! Assistimos a este espectáculo infame de homens perdidos de dívidas e de crimes cuja inocência se proclama, enquanto se fere a mesma honra, um homem de vida sem mácula! Quando uma sociedade chega a isto, cai em decomposição.

Eis, senhor Presidente, a questão Esterhazy: um culpado que se tratava de inocentar. Há cerca de dois meses, podemos seguir, hora por hora, a bela tarefa. Abrevio porque aqui é só, em grosso, o resumo da história, cujas páginas ardentes serão escritas um dia em toda a sua extensão. Vimos ainda o general de Pol­ieux[17], depois o major Ravary[18] conduzir um inquérito celerado do qual os patifes saem transfigurados e as pessoas de bem conspurcadas. Depois, convocaram o conselho de guerra.

***

 

Como se pôde esperar que um conselho de guerra desfaria o que um conselho de guerra tinha feito?

Não falo mesmo da escolha, sempre possível, dos juizes. A ideia superior de disciplina, que está no sangue desses soldados, não basta para anular mesmo o seu poder de equidade? Quem diz disciplina, diz obediência. Quando o minis­tro da guerra, o grande chefe, estabeleceu publicamente, perante as aclamações da represen­tação nacional, a autoridade absoluta do caso julgado, querem que um conselho de guerra lhe dê um formal desmentido? Jeràrquicamente, isso é  impossível. O general Billot sugestionou os juizes com a sua declaração e eles julgaram se devessem ir para o fogo, sem raciocinar. ­A opinião preconcebida que levaram para suas cadeiras foi evidentemente esta: «Dreyfus foi condenado por crime de traição por um conselho de guerra; é, portanto, culpado e, nós, conselho de guerra, não podemos declarar a sua inocência; ora, sabemos que reconhecer a culpabilidade de Esterhazy seria proclamar a inocência de Dreyfus». Nada podia fazê-los sair disso.

Pronunciaram uma sentença iníqua, que pesará para sempre sobre os nossos conselhos de guerra, que manchará doravante de suspeita todas as suas decisões. O primeiro conselho de guerra pôde ser ininteligente, o segundo é forçosamente criminoso. A sua desculpa, repito-o, é que o chefe supremo tinha falado, declarando o caso julgado inatacável, sagrado e superior aos ho­mens, de sorte que os inferiores não podiam dizer o contrário. Falam-nos da honra do exér­cito, querem ao menos, que a respeitemos. Ah! sem dúvida, sim, o exército que se levan­tará à primeira ameaça, que defenderá a terra francesa, ela e todo o povo, só temos por ele ternura e respeito. Mas não se trata dele, cuja dignidade justamente queremos, na nossa necessidade de justiça. Trata-se do sabre, o senhor que nos darão talvez amanhã. E beijar devotamente o punho do sabre, o deus, não!

Demonstrei-o já: a questão Dreyfus era a questão das repartições da guerra, um oficial do Estado-maior, denunciado pelos seus camarada do estado-maior, condenado sob a pressão doa chefes do estado-maior. Ainda uma vez, não pode tornar-se inocente sem que todo o estado-maior seja culpado. Assim, as repartições, por todos os meios imagináveis, com campanhas de imprensa, com comunicados, com influências, só cobriram Esterhazy para perder mais uma vez Dreyfus. Ah! que vassourada o governo republicano deveria dar nessa jesuitada, coma lhes chama o próprio general Billot! Onde está o ministério verdadeiramente forte e dum pa­triotismo sólido que ousará refundir e renovar tudo isso? Quantas pessoas conheço que perante uma guerra possível, tremem de ansiedade, sa­bendo em que mãos está a defesa nacional e que ninho de baixas intrigas, de mexericos e de esbanjamentos, se tornou esse asilo sagrado onde se decide da sorte da pátria! Espantamo-nos da luz terrível que lançou nele a questão Dreyfus, esse sacrifício humano dum infeliz, dum «porco judeu»! Ah! tudo que se agitou      nisso de demência e de tolice, de imaginação louca, de processos de baixa polícia, de costumes de inquisição e tirania, o belo prazer de alguns agaloados pondo as botas sobre a nação, fazendo-lhe engolir o seu grito de verdade e de jus­tiça, sob o pretexto mentiroso e sacrílego da razão de Estado!

E é ainda um crime terem-se apoiado na im­prensa imunda, terem-se deixado defender por toda a canalha de Paris, de modo que eis a cana­lha que triunfa insolentemente perante a der­rota do direito e da simples probidade. É um crime terem acusado de perturbar a França aqueles que a querem generosa, à frente das nações livres e justas, quando urdiram eles pró­prios a impudente conspiração para impor o erro à face do mundo inteiro. É um crime de­sorientar a opinião, empregar numa tarefa de morte essa opinião que se perverteu até a fazer delirar. É um crime envenenar os pequenos e os humildes, exasperar as paixões de reacção e de intolerância, abrigando-se atrás dum odioso anti-semitismo, de que a grande França liberal dos direitos do homem morrerá, se não se curar disso. É um crime explorar o patriotismo para obras de ódio, e é um crime, enfim, fazer do sabre o deus moderno, quando toda a ciência humana trabalha para a obra próxima da ver­dade e da justiça.

Essa verdade e essa justiça, que tão apaixo­nadamente queremos, que desgosto vê-las assim esbofeteadas, mais desprezadas e mais obscurecidas! Não duvido do desmoronamento que deve ter havido na alma do ar. Scheurer-Kestner e creio bem que acabará por sentir um remor­so, o de não ter actuado revolucionàriamente, no dia da interpelação no Senado, revelando toda a embrulhada, para deitar tudo abaixo. Foi o grande homem de bem, o homem da sua vida leal, viu que a verdade bastava a si própria, sobretudo quando ela lhe aparecia deslumbrante como a luz do dia. Para quê tudo agitar, pois em breve o sol tudo iluminará? E é dessa confiante serenidade que foi tão cruelmente punido. O mesmo para o tenente-coronel Picquart, que, por um sentimento de alta dignidade, não quis publicar as cartas do general Gonse. Esses escrúpulos honram-no, tanto mais que, enquanto se mantinha respeitoso da disciplina, os seus superiores faziam-no cobrir de lama, instruíam eles próprios o seu processo, do modo o mais inesperado e o mais ultrajante. Há duas vítimas, duas pessoas de bem, dois corações simples, que deixaram Deus proceder enquanto o diabo actuava. E viu-se mesmo, para o tenente-coronel Picquart, esta coisa ignóbil: um tribunal fran­cês, depois de ter deixado o promotor atacar publicamente uma testemunha, acusando-a de todas as faltas, passar à sessão secreta quando a tes­temunha foi introduzida para se explicar e defender. Digo que isto é mais um crime e que este crime levantará a consciência universal, decididamente, os tribunais militares têm uma singular ideia da justiça.

Tal é, portanto, a simples verdade, senhor Presidente, e ela é terrível e ficará na sua pre­sidência como uma nódoa. Quer parecer-me que não tem nenhum poder nesta questão, que é pri­sioneiro da constituição e dos que o cercam. Não deixa de ter um dever de homem, no qual pensa e que cumprirá. Não é, aliás, por eu desespe­rar do triunfo em pouco que seja. Repito-o com uma certeza mais veemente: a verdade está em marcha e nada a deterá. Sòmente hoje a questão começa, pois só hoje as posições são nítidas: duma parte os culpados que não querem que a luz se faça; da outra, os justiceiros que darão a sua vida para ela ser feita. Já o disse noutra parte e repito-o aqui: quando en­cerram a verdade debaixo da terra, ela con­centra-se e toma uma tal força explosiva que se um dia rebenta faz saltar tudo consigo. Ver-se-á se não acabam de preparar, para mais tarde, o mais estrondoso dos desastres.

***

 

Mas esta carta é longa, senhor Presidente, e é tempo de concluir.

Acuso o tenente-coronel du Paty de Clam de ter sido o obreiro diabólico do erro judiciário, inconscientemente quero crê-lo, e de ter em se­guida defendido a sua obra nefasta, há três anos, com maquinações as mais ridículas e as mais culposas.

Acuso o general Mercier de se ter tornado cúmplice, ao menos por fraqueza de espírito, duma das maiores iniquidades do século.

Acuso o general Billot de ter tido nas mãos as provas certas da inocência de Dreyfus e de as ter abafado, de se ter tornado culpado desse crime de lesa-humanidade e de lesa-justiça; com um fim político e para salvar o estado-maior comprometido.

Acuso o general de Boisdeffre e o general Gonse de se terem tornado cúmplices do mesmo crime, um sem dúvida por paixão clerical, o outro, talvez, por esse espírito de corpo que faz das repartições da guerra uma arca santa, ina­tacável.

Acuso o general de Pellieux e o major Ravary de terem feito um inquérito celerado, quero di­zer, um inquérito da mais monstruosa parciali­dade, de que temos, no relatório do segundo, um imperecível monumento de ingénua au­dácia.

Acuso os três peritos em escrita, srs. Bellhomme, Varinard e Couard[19], de terem feito relatórios mentirosos e fraudulentos, a menos que um exame médico não os declare atacados de doença da vista e do discernimento.

Acuso as repartições da guerra de terem promovido na imprensa, particularmente em L’Eclair e em L’Echo de Paris, uma campanha abominável, para desorientar a opinião e cobrir as suas faltas.

Acuso finalmente o primeiro conselho de guerra de ter violado o direito, condenando um acusado por uma peça que ficou secreta, e acuso o segundo conselho de guerra de ter coberto esta ilegalidade, por ordem, cometendo por sua vez o crime jurídico de absolver conscientemente um culpado.

Ao fazer estas acusações, não ignoro ficar sob a alçada dos artigos 30 e 31 da lei de imprensa de 29 de Julho de 1881, que pune os delitos de difamação. E é voluntàriamente que me ex­ponho.

Quanto às pessoas a quem acuso, não as conheço, nunca as vi, não tenho contra elas nem rancor nem ódio. São sòmente para mim enti­dades, espíritos da malevolência social. E o acto que pratico aqui é apenas um meio revolu­cionário para apressar a explosão da verdade o da justiça.

Só tenho uma paixão, a da luz, em nome da humanidade que tanto tem sofrido e tem direito à felicidade, O meu protesto inflamado é apenas o grito da minha alma. Que ousem portanto fazer-me comparecer perante o tribunal do júri e que o processo se realize à luz do dia!

Espero.

Creia, senhor Presidente, na certeza do meu profundo respeito.

 

a)          Emílio Zola

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[1]  A Rosa é o símbolo da República Francesa. O autor apropriou-se desta poesia por observar nela uma forte componente social e humana e, por isto, sentiu coadunar-se com a matéria em causa.

[2]  Enorme amiga minha que na sua espiritualidade humanista dedicou a vida-escrita-política contra a injustiça, o perjúrio, os domínios e as potestades «estejas onde estiveres e se por acaso estás em mim só espero que não sofras o que sofreste... que o Algo te abençoe!

[3]  Carta de Émile Zola ao Presidente da República da França, Félix Faure, contra as insídias judiciais e militares que injustamente condenaram Dreyfus à prisão perpétua na Ilha do Diabo. O texto aqui exibido é a cópia original retirada do documento do biógrafo deste escritor contido no diário de Zola em poder da sua filha. O documento J’ACCUSE!... se bem que apareça sob o nome de Émile Zola apenas foi publicado depois da sua morte; foi o seu biógrafo em conjunto com a filha de Zola que a partir do seu diário o compilaram e editaram.

[4] Zola, então ainda insuficientemente informado, atribuiu a origem de toda a questão a este oficial, quando, na verdade, o causador de tudo foi o major Henry, que não reconheceu — ou não quis reconhecer na letra do bordereau a caligrafia de Esterhazy, seu agente. O marquês du Paty de Clam (Armando-Augusto-Carlos-Fernando-Maria Mer­cier) prestava serviço na 3. Repartição do Estado-Maior e ocupava-se de questões de grafologia. O sub chefe do Estado-Maior, general Gonse, consultou-o, mostrando-lhe o bordereau e os espécimes da caligrafia do capitão Dreyfus. Du Paty de Clam foi de parecer que eram da mesma pessoa, mas aconselhou que se convocassem peritos para ser feito um exame pericial em forma. Um perito, Gobert, apresentou um relatório dubitativo; outro perito, Bertillon, pronun­ciou-se pela identidade das caligrafias. Foi, então, decidido prender Dreyfus, sendo o major du Paty de Clam encarre­gado de o ouvir, como oficial de polícia judiciária. Tomou a peito a questão, convencido da culpabilidade de Dreyfus, e interveio em todos os processos e discussões acerca do as­sunto. Foi reformado, por imposição de serviço, em Novem­bro de 1900, e protestou contra essa medida. Quando da transladação dos restos mortais de Zola para o Panteão, em 1908, du Paty de Clam lembrou-se de responder às acusações contidas nesta Carta de Zola e dirigiu uma carta à Aurore, invocando o direito de resposta, que só prescreve pas­sados trinta anos. A Aurore publicou essa carta na véspera da exumação do corpo de Zola do cemitério de Montmartre. Nela dizia que a cerimónia projectada era «a apoteose da calúnia». Foi testemunha de defesa de Gregori, que alvejou a tiros de revólver Dreyfus, por ocasião dessa trasladação.

 

[5] O major Fernando-Domingos Forzinetti era o comandante militar da prisão do Cherche-Midi, onde Dreyfus foi conduzido pelo major Henry, quando da sua captura como suposto autor do bordereau. Soube das torturas aplicadas ao acusado por du Paty de Clam, para o obrigar a confessar, e falou delas a várias pessoas, entre elas ao jornalista Possien o qual publicou a esse respeito um artigo em Le Jour, que du Paty de Clam não desmentiu.

 

[6] 0 tenente-coronel João-Roberto-Conrado-Augusto San­dherr, era, em 1894, o chefe da secção de estatística do Estado-Maior, a qual tinha a seu cargo os assuntos de espionagem. O major Henry, adjunto de Sandherr, era quem tomava conhecimento e arquivava os documentos em francês concernentes à espionagem em França. Os redigidos em línguas estrangeiras eram confiados a outro adjunto, o ca­pitão Lauth.

[7] O general Augusto Mercier era o ministro de guerra do gabinete Dupuy, desde 1893. Informado das manobras de espionagem dos adidos militares alemão e italiano, acre­ditou na culpabilidade de Dreyfus e foi sob a sua responsa­bilidade que se cometeram as ilegalidades de que está cheia a questão Dreyfus. Quando, em 19o6, foi discutido o pro­jecto de lei que reintegrava Dreyfus no exército, o general Mercier, então senador, votou contra, alegando «que em sua consciência» Dreyfus era culpado. A Action Française louvou muito essa atitude e promoveu uma homenagem pública à consciência do general Mercier. Essa homenagem consistiu na entrega duma medalha de ouro, obra do escul­tor Jean Baffier, ao consciencioso general e antigo ministro da guerra da República. A cerimónia da entrega da meda­lha, de iniciativa do jornal monárquico, realizou-se em 29 de Junho de 1907, na sala Wagram, na presença de 6000 pessoas.

 

[8] O general Raúl-Francisco-Carlos le Mouton de Boisdeffre era o Chefe do Estado-Maior do Exército, na altura em que foi descoberto o bordereau. Superintendeu nas diligências efectuadas e foi ele quem nomeou du Paty de Clam oficial de polícia judiciária, para organizar o processo Dreyfus. Responsável das ilegalidades cometidas na organização do processo e julgamento do acusado, só quando foi desco­berta a falsificação cometida por Henry pediu a sua demissão. O ministro da guerra, Cavaignac, não queria aceitá-la, embora o presidente do conselho, Brisson, entendesse que o Chefe e o subchefe do Estado-Maior deveriam ser subs­tituídos. O general de Boisdeffre manteve o seu pedido de demissão. Deixou finalmente o cargo de Chefe do Estado-Maior General, em 31 de Agosto de 1898, e passou à inac­tividade.

 

[9] O general Carlos-Artur Gonse, subchefe do Estado-Maior General, secundou o seu Chefe e os seus subordinados Henry e du Paty de Clam, em todas as ilegalidades tendentes a comprometer Dreyfus e depois a inocentar Esterhazy. Após o suicídio de Henry, teve de passar à dispo­nibilidade, a partir de 1 de Outubro de 1898.

[10] A expressão «repartições da guerra» significa do ministério da guerra, ou antes: do Estado-Maior do Exército.

 

[11] Era um dos documentos inventados por Henry, e depois de mostrado aos membros do conselho de guerra recolheu aos arquivos.

[12] O major Mário-Carlos-Fernando Walsin Esterhazy, embora nascido em Paris, em 16 de Dezembro de 1847, descendia, por uma linha colateral, dos príncipes húngaros do mesmo apelido e, por isso, considerava ter como suserano o imperador da Alemanha. Ainda no tempo do Segundo Império, serviu como oficial subalterno na legião romana e depois no regimento estrangeiro, a título estrangeiro. Após a queda do Império, ingressou nos quadros do exército francos e foi promovido a capitão, por escolha, em 1850. Ascendeu ao posto imediato, também por escolha, em 1892. Fora ajudante do general Rebilliard e prestara ser­viço na secção de informações e nos negócios indígenas, na Tunísia. Quando o tenente-coronel Picquart substituiu Sandherr na 3ª Repartição do Estado-Maior, Henry passou a entregar-lhe os papéis obtidos pelos seus agentes. Entre esses papéis, apareceu uma carta-telegrama, encontrada em pedaços no cesto dos papéis do adido militar à Embaixada na Alemanha, que tinha o endereço: «Sr. major Esterhazy, 27, rua da Beneficência — Paris». Essa carta não chegara a ir ao seu destino e tudo indica ter sido propositadamente abandonada para chamar as atenções sobre Esterhazy. O tenente-coronel Picquart fez um inquérito secreto acerca desse oficial, em Março de 1896, e descobriu não só a vida dissoluta de Esterhazy e as suas exigências de dinheiro a judeus como a sua actividade de espião ao ser­viço da Alemanha e, por fim, que o bordereau atribuído a Dreyfus era da autoria de Esterhazy. Este fez diligências, pouco depois, no sentido de ir prestar serviço no ministério da guerra. Então Picquart informou os seus chefes de quanto apurara acerca desse oficial, sem nada ter comunicado a Henry a tal respeito. Tanto o Chefe como o subchefe do Estado-Maior aconselharam prudência a Picquart e resisti­ram a proceder contra Esterhazy. Como Picquart insistisse, acabaram por afastá-lo do ministério da guerra, encarregando-o duma missão de informações na fronteira italiana e depois doutra mais arriscada no Norte de África. Entretanto, Henry e du Paty de Clam montaram uma série de maquinações, com cartas anónimas e encontros com Esterhazy em sítios escusos, aparecendo du Paty, de óculos fu­mados e barbas postiças, a fim de o advertir do que havia contra ele. Esterhazy, arrogante, escreveu cartas ao minis­tro da guerra, ao chefe do governo e ao Presidente da República, na última das quais dizia possuir um documento que estabelecia claramente a culpabilidade de Dreyfus, do­cumento que lhe fora entregue por uma «dama velada». Esta «dama velada» fora o próprio du Paty e o documento ­uma das falsificações feitas por Henry. O irmão e os amigos de Dreyfus, informados pelo advogado Leblois das con­clusões a que chegara Picquart, resolveram denunciar Esterhazy como autor do bordereau. Para não comprometer Picquart, inventaram que o banqueiro judeu, Jaime de Cas­tro, que tivera em tempos relações de dinheiro com Esterhazy, comprara, na rua, uma reprodução em fac simile do bordereau. Verificara ser a caligrafia a mesma de Esterhazy e informara disso o seu correligionário Mateus Dreyfus, o qual resolveu, então, proceder contra Esterhazy. Este foi denunciado por Mateus Dreyfus, em carta dirigida ao minis­tro da guerra, em 14 de Novembro de 1897, e publicada na imprensa do dia 16 do mesmo mês. Nesse mesmo dia, Esterhazy requereu uma sindicância aos seus actos e o ministro da guerra, interpelado na Câmara dos Deputados, declarou que o autor da denúncia ia ser chamado a apresen­tar as provas do que avançava. No dia seguinte, foi o gene­ral de Pellieux incumbido de fazer uma sindicância. Ouvido, Esterhazy declarou que Picquart maquinara tudo contra ele, com o objectivo de obter a revisão do processo de Dreyfus. Acrescentou que, se a letra do bordereau tinha alguma se­melhança com a sua, fora por Dreyfus lha ter imitado. O general de Pellieux, no relatório da sua sindicância, concluía que Esterhazy, a despeito dos «desmandos da sua vida pri­vadas e de ser um «oficial tarado», não era o autor do bordereau e que Picquart procedera mal, revelando a estranhos assuntos confidenciais do ministério da guerra, e deveria ser sindicado. O ministro da guerra, forte com as conclusões de Pellieux, ordenou que fosse feito um inquérito judi­ciário, em vez de sindicância. O inquérito foi feito pelo mesmo general de Pellieux e as conclusões foram as mes­mas. Esterhazy, parece que por sugestão do próprio inquiridor, requereu um conselho de guerra, a fim de ficar completamente ilibado. Entretanto, a campanha na imprensa, pró e contra Esterhazy — no fundo contra ou pró Dreyfus — tomou extraordinário incremento, sendo publicadas cartas de Esterhazy altamente comprometedoras. Foi encarregado de instaurar o processo requerido por Esterhazy o major Ravary, que era promotor junto do 1º conselho de guerra. Depois de ouvir quantos tinham deposto perante o general de Pellieux, acabou por propor que o processo fosse arquivado por não haver «prova jurídica probatórias. Essa proposta tinha a data de 31 de Dezembro de 1899; mas o general Saussier, governador militar de Paris, não concordou com ela e despachou, em 2 de Janeiro seguinte, que o processo fosse submetido a julgamento. Esterhazy, que estivera sempre em liberdade, foi detido na véspera do julgamento, que começou a 10 de Janeiro de 1898. Foram ouvidos quantos tinham deposto na sindicância e no processo e após um simulacro de discussão da causa, em que o promotor de justiça desistiu de fazer a acusação, Esterhazy foi absolvido por unanimidade e saiu do tribunal em triunfo, entre aclamações entusiásticas. Foi nessa altura que Zola escreveu a Carta cuja tradução fazemos neste volume. Após a condenação de Zola, Esterhazy continuou a dar que falar de si, praticando desmandos, publicando cartas, fazendo insinuações, a ponto de ser submetido a um conselho de disciplina, o qual por maioria, propôs que fosse reformado. A sua reforma foi determinada em 31 de Agosto de 1898. Recorreu contra isso e não foi atendido. Em Outubro seguinte, foi irradiado dos quadros da Legião de Honra. Foi então para o estrangeiro e lá publicou, ou antes: vendeu, informações sensacionais, sob o caso Dreyfus. Assim, o Daily Chronicle, comprou-lhe, por 5.000 francos, os «Bastidores da Questão Dreyfus», em que punha em causa du Paty de Clam e o general de Pellieux. Afirmava estar ligado com Henry, o qual não tinha segredos para ele, dando a entender ter escrito o bordereau por ordem do coronel Sandherr. Embora rectificasse, depois, este último ponto, quando foi decidida a revisão do processo de Dreyfus, em 3 de Junho de 1899, o Matin publicou uma entrevista com Esterhazy, na qual este confessava, abertamente, ser o autor do bordereau revelando assim «o segredo que — dizia — não lhe tinham podido arrancar a peso de oiro». Como fosse posta em dúvida essa sua declaração, o Matin, do dia 8 do mesmo mês, publicou uma carta autógrafa de Esterhazy, na qual este dizia ser a entrevista do dia 3 «rigorosamente exacta e reproduzir textualmente as suas próprias palavras». Esta categórica confissão fez com que os adversários de Dreyfus passassem a acusar Esterhazy de se ter vendido aos judeus. Durante o segundo julgamento de Dreyfus, realizado em Rennes, Esterhazy multiplicou-se escre­vendo cartas aos generais e membros do tribunal, com precisões sobre a redacção do bordereau. Deu entrevistas à imprensa inglesa e fez-se fotografar a escrever esse pretenso documento. Ninguém, contudo, já o tomava a sério.

 

[13] Augusto Scheurer-Kestner, de origem alsaciana, era senador inamovível e foi vice-presidente do Senado de 1883 a 1899. Figura austera de democrata, embora não estivesse convencido da inocência de Dreyfus, logo que o seu amigo, o advogado Leblois, lhe demonstrou que no julgamento do caso de espionagem tinham sido cometidas graves irregularidades, envidou todos os esforços no sentido da revisão do processo, não por amor a Dreyfus, mas por amor à República. Pediu isso ao seu amigo general Billot, ministro da guerra do gabinete Méline, como o pediria a este e ao mi­nistro da justiça Darlan, indo até junto do Presidente da República, Félix Faure. Nunca foi atendido. Os adversários de Dreyfus dirigiram-lhe os mais violentos ataques. Por isso, o primeiro artigo de Zola sobre a questão Dreyfus, publicado no Figaro, em 25 de Novembro de 1897 é sobre a personalidade de Scheurer-Kestner.

[14] O major Mário-Jorge Picquart, depois de ter tomado parte em várias campanhas coloniais, era professor de topografia da Escola, de Guerra quando, em 1895, foi chamado para substituir o coronel Sandherr no serviço de informações, da 3ª Repartição do Estado-Maior. As suas suspeitas acerca de Esterhazy (Ver Nota 9) provocaram o desagrado dos seus chefes, que o afastaram desse serviço e passaram a violar a correspondência que lhe era dirigida para o mi­nistério. Isso fez-se por instigação de Henry, que forjou cartas destinadas a comprometer Picquart e enviou a este tele­gramas misteriosos, também para o intrigar e comprometer, assinadas Alexandrine, Speranza e Blanche. Blanche era o nome duma senhora amiga de Picquart, de apelido Commin­ges, a quem também quiseram comprometer. Após os seus depoimentos no inquérito e no processo instaurado a Es­terhazy e de ter revelado cartas que recebera do general Gonze, foi submetido a um conselho de disciplina, a instiga­ção de Henry. O conselho de disciplina pronunciou-se pela sua imediata passagem à reforma, a qual foi ordenada, em 26 de Fevereiro de 1898, logo após a condenação de Zola. Interveio depois em todos os processos que se seguiram, querelou jornais e foi querelado. Foi uma das individualida­des mais atacadas pelos adversários de Dreyfus. A despeito de várias tentativas feitas, em 1905, pelo ministro da guerra, general André, para ser reintegrado no exército, no posto que lhe competia, só foi aprovado o projecto da sua reintegração em Julho de 1906, ao mesmo tempo que o da rein­tegração de Dreyfus. Foi reintegrado como general de brigada e promovido a general de divisão em Setembro seguinte, no gabinete presidido por Clemenceau. O jornal monárquico Action Française promoveu então, uma campanha contra ele, fazendo afixar cartazes com um apelo ao país por estar no ministério da guerra um indisciplinado e falsificador.

 

[15] O general João Baptista Billot, que foi ministro da guerra no gabinete Méline, informado pelo seu amigo, o senador Scheurer-Kestner, do que se passara no julgamento de Dreyfus (V. nota 10), aconselhou esse político a não se ocupar do caso. Permitiu todas as manobras de Henry contra Picquart e a favor de Esterhazy. Quando faleceu, em Maio de 1907, era ministro da guerra o general Picquart que nem se fez representar no funeral.

[16] O marquês de Morès (António-Amadeu-Maria-Vicente Manca de Vallombrosa) acusara de espionagem na Libre Parole, em Maio de 1892, um tal Maurício Weil, que tinha muita influência no ministério da guerra e pertencia, efecti­vamente, ao serviço de espionagem. Era muito amigo de Esterhazy e foi graças a Weil que Esterhazy obteve auxílio de dinheiro de judeus. O marquês de Morès fora incumbido duma missão de reconhecimento na fronteira da Tripolitânia e aí encontrou a morte numa emboscada. De idêntica missão encarregaram Picquart, em Outubro de 1897, decerto para ter a mesma sorte do marquês de Morès, durante a sua visita aos postos fronteiriços, ao procurar estabelecer contactos com os indígenas.

[17] O general Jorge-Gabriel de Pellieux foi incumbido de fazer a sindicância a Esterhazy (Ver nota 9). Constou que pedira a sua demissão após o suicídio de Henry, mas não foi verdade.

[18] O major Alexandre-Alfredo Ravary foi o oficial de polícia judiciária que instruiu o processo de Esterhazy para o conselho de guerra (Ver nota 9).

[19] Belhomme, Varinard e Couard eram pontos em escrita, junto dos tribunais de Paris. A eles recorreu o major Ravary, quando organizou o processo de Esterhazy, dando-lhes para exame espécimes da escrita deste e o bordereau. Foram unânimes na sua conclusão dizendo: «O bordereau incrimi­nado não é obra do major Esterhazy.. Afirmaram isso «em sua honra e consciência. O próprio Esterhazy os desmentiu».